#15

Não, não me roubaram as emoções. Não estou pintada de branco como as paredes do meu quarto, como a luz do sol, como o paninho de renda em cima da mesinha de cabeceira. Ainda há cor dentro de mim. Mas há também um buraco que a suga, que suga a dor, a felicidade, os que amo, a música tão doce e pura, o cheiro das flores, as ondas do mar. Julgas-me perdida nas sombras, sem asas para voar. E culpas o acidente que me desenhou na testa uma cicatriz. Se soubesses o quão errado estás. Se eu te pudesse dizer o quão errado estás. Olha-te ao espelho e culpa-te a ti. Culpa o abraço que nunca me deste. Culpa o sorriso que nunca me ofereceste. Culpa as dividas ao banco que sempre foram mais importantes do que eu. Culpa o cheiro a ópio da mulher que dançava em cima do balcão da discoteca onde foste, procurando esquecer os problemas da vida. Culpa-te por não saber mais sorrir, por não saber mais chorar. Culpa-te mas sabe que eu te perdoo. Sabe que não foste o único a abrir este buraco que tudo suga. A minha mãe que morreu, o meu pai (que afinal não era meu pai; porque "pai é quem ama, quem cuida", dizia ele, mas eu não me sentia amada, nem cuidada) que dormia com a minha irmã, o maestro que entre flores e jantares me levou a chorar sobre os lençóis sujo daquele quarto com paredes vermelhas: todos eles são culpados também. Tenho saudades tuas. Tenho saudades de ir passear contigo ao parque - onde ficávamos horas encostados a uma árvore, escondidos do mundo, enquanto as tuas mãos passeavam livremente pela minha pele branca, fina, virgem. Tenho saudades dos beijos quentes mas delicados que dávamos às escondidas da Maria (dois corpos com três sombras, porque, dizia o meu pai: "a minha filha é especial!"). Tenho saudades dos teus poemas, das tuas anedotas sem piada, das quais eu, tão inocentemente, ria. Trás de volta esse homem, mostra-me que vale a pena vestir as emoções que o buraco que existe dentro de mim (bem junto ao coração) sugou. Depois, eu sorrirei. Sempre que me pedires. Depois, eu voarei. Sempre que quiseres. Depois, eu tocarei harpa. Sempre que te apetecer ouvir-me. Porque, por mais cicatrizes que a vida me dê, serei sempre a menina com os dedos finos e delicados por quem te apaixonaste.

Inspirado no livro "Diário dos Imperfeitos" de João Morgado.

Gostaste? Então, não guardes só para ti!

SOBRE A AUTORA

Olá! O meu nome é Daniela Nogueira, tenho 18 anos e estudo Direito. Sou uma apaixonada por Artes. Escrevo no (Des)Apontamentos há cerca de quatro anos (com muitas mudanças, pelo meio...) e espero fazê-lo por muitos mais. A natureza, os meus sentidos e a alma das pessoas são os meus temas favoritos!

12 Comentários

  1. Não me canso de ler os teus textos. Por favor, escreve um livro. Era capaz de o reler vezes sem conta! ❤

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  2. Tão bom ler isso, Bells! Um dia, quem sabe, escreva um. Está na lista dos meus sonhos :)

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  3. Escreves muito bem! Você tem dom, gostei muito do teu blog!
    Seguindo seu blog, sucesso pra ti! Beijinhos
    http://meninabonitaeestilosa.blogspot.com.br/

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    1. Que bom! Ainda bem que gostaste, Renata! :)
      Beijinhos*

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  4. Está lindo, sigo o teu blogue a pouco tempo e adoro quando escreves com o coração.
    Beijinhos.

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    1. Muito obrigado, Catarina. Significa muito para mim saber que quem está desse lado gosta do que eu escrevo.
      Beijinhos*

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  5. Amei o texto! Tanto que até fiquei sem palavras (:

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  6. Muito lindo !!!!adorei muito bom:-)

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  7. Adorei seu texto é um dom com certeza ,por favor continue a escrever pois adoro ler todos e nao da para er apenas uma vez ne :-)

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    1. É tão bom ler comentários assim! :) Muito obrigado ♥

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